Sessão Ordinária 030/2026 — Câmara Municipal de Grajaú-MA · 11 de agosto de 2026 · 4h28 de sessão · Plenário Vereador Kardec Barros
A sessão ordinária desta terça-feira foi a mais longa e tensa do semestre legislativo em Grajaú. Durante quatro horas e meia, vereadores da base e da oposição travaram embates diretos sobre a situação da saúde, da educação, da infraestrutura e das finanças do município — com denúncias de postos de saúde fechados, transporte escolar parado, recursos que teriam desaparecido do caixa e obras estaduais que Grajaú está prestes a perder.
O pano de fundo é explicitamente eleitoral: faltando cerca de 50 dias para o pleito de 4 de outubro, as falas se dividiram entre defesa da gestão do prefeito Antônio Gilson Bonfim da Silva (Dr. Gilson) e cobranças cada vez mais duras de aliados e opositores.
Expediente: projetos, indicações e ofícios
Ata anterior rejeitada em primeira votação. A ata nº 029/2026 não foi aprovada na primeira chamada por ausência de vereadores no plenário no momento do voto — o presidente pediu agilidade aos colegas e a matéria foi aprovada em seguida.
Audiência do SAAE adiada. Ofício nº 280/2026 do Serviço Autônomo de Água e Esgoto, assinado pelo diretor Rodrigo de Souza Orquiza, pediu o adiamento da apresentação pública sobre a situação financeira da autarquia. A audiência foi remarcada para 17 de agosto de 2026, às 9h, na Câmara. A apresentação deve detalhar receitas, despesas, dívidas e disponibilidade de caixa do SAAE.
Indicação aprovada — BR-226. Indicação nº 007/2026, de autoria do vereador Henrique Mello, solicitando a construção de barreira de contenção (guarda-corpo/defensa metálica) às margens da BR-226, no bairro Canoeiro, próximo à “motoca” que dá acesso à Vila Esperança e ao bairro da Torre. Justificativa: desnível acentuado que coloca em risco motoristas, motociclistas, ciclistas e pedestres. Aprovada por unanimidade.
Projeto de Lei dos cemitérios rurais. De autoria do presidente Elielson, dispõe sobre conservação, preservação e garantia de acesso a cemitérios, túmulos e locais de sepultamento em imóveis rurais privados. O texto obriga proprietários a preservar sepulturas existentes, assegura acesso de familiares para visitação e limpeza, garante livre acesso no Dia de Finados, exige informação da existência de sepulturas em qualquer negociação do imóvel e prevê penalidades (advertência, multa de 5 a 100 UFM, reparação de danos).
“Eu tenho uma fazenda, lá estavam enterrados meus entes queridos, eu precisei vender. E amanhã os novos proprietários não destroem, porque já tem vários acontecimentos.” — vereador Elielson, defendendo o projeto
O projeto gerou o primeiro debate qualificado do dia. O vereador Flávio Henrique apontou fragilidade jurídica e sugeriu que o município fizesse a doação ou desapropriação das áreas, incorporando-as ao patrimônio público. Henrique Mello ponderou que na maioria dos casos não se trata de cemitérios, mas de sepulturas isoladas em propriedades familiares. O projeto foi encaminhado às comissões.
Censo Agropecuário 2027. No encerramento, foi lido ofício do IBGE informando que Grajaú foi escolhido como município-polo para as reuniões de planejamento do 12º Censo Agropecuário, Florestal e da Agricultura. A primeira reunião ficou marcada para 12 de agosto, às 9h, na Academia Grajauense de Letras.
Os embates da tribuna
Henrique Mello (PSDB) — “É lamentável um vereador subir aqui para fazer essa cobrança”

Vereador da base do governo, Henrique Mello subiu à tribuna para cobrar publicamente o Executivo por um projeto de lei de sua autoria, protocolado em 17 de março, voltado à Igreja Católica, que até hoje não foi nem sancionado nem vetado pelo prefeito.
Ele afirmou ter procurado a chefe de gabinete, Gabriela, na véspera, sem resposta, e lembrou que a Câmara tem prerrogativa de promulgar projetos por decurso de prazo. Fez questão de marcar que a cobrança era pessoal, não institucional: “a cobrança que estou fazendo é em nome do vereador Henrique Mello”. Reafirmou-se aliado do prefeito, “mas não posso deixar de cobrar quando está errado”.
Flávio Henrique apoiou e sugeriu que a Casa levantasse todos os projetos de lei parados no Executivo — inclusive de anos anteriores — para dar transparência à população.
Mello também homenageou o Dia do Estudante e o Dia do Advogado, e anunciou que dará entrada em projeto de título de cidadão grajauense para Frei Joacir Souza Fernandes, autor do livro sobre os capuchinhos em Grajaú.
Pedrinho do Remanso (PL) — o vídeo do posto de saúde com morcegos

O discurso mais contundente da sessão. O vereador exibiu no telão do plenário um vídeo gravado por ele mesmo no posto de saúde do assentamento São Tantanho (Angico), mostrando a unidade fechada, suja e tomada por morcegos — apesar de o prefeito ter estado no local prometendo inaugurá-la.
“Cadê o nosso prefeito, que andou aqui, disse que ia inaugurar e abrir o posto de saúde? […] Vamos prestar conta do dinheiro público, do povo.”
Pontos centrais da denúncia:
- R$ 10 milhões: cobrou explicações sobre o valor que o ex-secretário de Saúde (o vice-prefeito Luiz Fernando) declarou, em documento entregue à Câmara, ter deixado em caixa — e que, segundo relatos que recebe, não estaria mais disponível.
- Morte em frente ao posto fechado: relatou que a moradora Amélia Lascaraíba faleceu diante da unidade de saúde desativada. A distância até o posto mais próximo, no Ponto da Negra, é de mais de 30 km.
- Transporte escolar parado: alunos do Vera Cruz estavam há duas semanas sem transporte; rotas da Matinha e do “Ombro Amarelo” também entregues por falta de pagamento.
- Avaliação da gestão: “o prefeito atual que está aí quebrou a cidade, não é dois anos de mandato, faliu a cidade.”
Afirmou que continuará gravando vídeos como prova: “às vezes a gente só fala, alguém pode dizer que é mentira; no vídeo eu quero ver se o cabra vai dizer que ele está mentindo.”
Zé Birita (vice-líder do governo) — a defesa da gestão
O vereador Zé Birita fez a principal defesa do Executivo, em confronto direto com Pedrinho:
“Nós temos a melhor saúde dos últimos tempos hoje em Grajaú. É muito fácil fazer crítica.”
Argumentou que as unidades citadas foram construídas na gestão anterior e nunca inauguradas, questionando por que o governo passado não as colocou em funcionamento. Listou obras da atual gestão: asfalto e bloquetes na Vila Tucum, Canoeiro e bairro Quem Dera; poços artesianos na Vilinha e Vila Tucum; “quase 400 km de piçarra” em estradas vicinais; operação tapa-buraco. Atribuiu eventuais atrasos ao bloqueio judicial de R$ 11 milhões sofrido pelo município.
Também classificou a inauguração da UPA, na gestão anterior, como “obra eleitoreira” — o que provocou a réplica mais dura de Flávio Henrique.
Pedrinho revidou de forma direta:
“Essa falinha sua aí, de estar com o prefeito lá passando a mão nas pernas dele […] não vai me intimidar de deixar de fazer vídeo.”
Regina Mundoca (PDT) — contestação da denúncia da merenda

Única mulher na Casa, a vereadora abriu a fala marcando os 20 anos da Lei Maria da Penha e o Agosto Lilás, defendendo maior presença feminina na política e sinalizando pré-candidatura à presidência da Câmara.
Na sequência, rebateu publicamente o vereador Eduardo Ribeiro sobre a denúncia de falta de merenda na Escola Paulo Ferraz. Disse ter ido pessoalmente à escola, filmado e constatado o contrário:
“Eu fui lá, eu tenho vídeo, filmei […] e lá sim tem merenda, merenda de qualidade.”
Afirmou que a ausência de aulas na segunda-feira se deveu a professores adoentados, não à falta de merenda, e sugeriu motivação política na denúncia, observando que o diretor da escola é parente do ex-vereador e professor Anselmo Barros, apontado como fonte da informação.
Eduardo Ribeiro (PDT) — “O governo está anestesiado”

O discurso mais longo e político da sessão. Eduardo Ribeiro respondeu a Regina mantendo a denúncia — disse que a informação partiu do professor e ex-vereador Anselmo Barros e que pedirá que ele seja convidado à Casa para esclarecer.
Fez então uma avaliação ampla e severa da gestão, marcando que fala como quem ajudou a eleger o prefeito e tem com ele relação de parentesco:
“O governo está perdido. O governo está anestesiado, o governo está num sono profundo.”
Principais cobranças:
- Postos de saúde fechados: Andaraí, Macaúba, comunidade quilombola — nenhum funcionando após 1 ano e 7 meses de mandato.
- Frentes de serviço: questionou onde está o maquinário da infraestrutura, alertando que o período seco está acabando e as estradas vicinais não foram recuperadas.
- Fornecedores sem receber: relatou que prestadores de serviço estão suspendendo fornecimento por falta de pagamento.
- Rompimento político: afirmou que o prefeito rompeu com o grupo que o elegeu (do ex-prefeito Messias) dois meses após assumir, e que a disputa entre os deputados Ricardo Arruda e o grupo do prefeito está custando obras a Grajaú.
- Falta de maturidade política: “o que Grajaú está faltando é maturidade.”
Elogiou nominalmente o secretário de Infraestrutura Pacheco, atribuindo a paralisia não à competência dele, mas à falta de condições e recursos.
Flávio Henrique (MDB) — a cratera do Frei Alberto e os R$ 250 mil do projeto

Flávio Henrique trouxe a denúncia de maior potencial de repercussão do dia. Sobre a voçoroca (cratera) do bairro Frei Alberto Beretta, cobrou:
“Tenho quase certeza que nem projeto para resolver aquele problema existe.”
Relatou que o prefeito afirmou publicamente, em audiência na Bela Estrela, ter pago R$ 250 mil por um projeto (R$ 150 mil e depois mais R$ 100 mil). Porém, em audiência na Câmara com Defensoria Pública e órgãos ambientais, o engenheiro apresentado informou que o projeto sequer havia sido entregue ao município.
“Para quem foi pago esses R$ 250 mil? Essa é a pergunta que fica.”
Cobrou também os R$ 9 milhões que o prefeito teria anunciado estarem disponíveis para resolver o problema, alertando que o período chuvoso se aproxima e o prejuízo pode saltar para R$ 18 a R$ 25 milhões.
Outras pautas: iluminação nos cemitérios públicos (especialmente o do Canoeiro); substituição da van de pacientes de hemodiálise por veículo em piores condições; e preocupação com a capacidade de pagamento do município — questionou publicamente a autonomia do novo secretário de Finanças, Raul.
Rebateu ainda a fala de Zé Birita sobre a UPA:
“As pessoas que utilizaram a UPA não veem a UPA como um serviço eleitoreiro, e sim um serviço para salvar vidas.”
Detalhou que a UPA estava sem recursos e foi concluída com verba própria do município, com apoio do deputado federal Rubens Júnior e do governo do Estado.
Elielson do Caboclo (presidente) — a praça de R$ 1,2 milhão que Grajaú pode perder

Raramente usa a tribuna, mas fez nesta sessão um dos discursos mais longos — e mais explosivos.
A praça ameaçada. Uma emenda de R$ 1.289.679,64 do senador Weverton Rocha, a pedido do deputado estadual Ricardo Arruda, foi destinada à construção de uma praça no bairro Extrema. O prefeito informou que já havia outra programação para aquele terreno e não cederia a área. Sem a doação de um terreno municipal ao Estado, o recurso será perdido.
“Prefeito Gil, se você está de bom coração, se você não tem rancor com as emendas do deputado Ricardo Arruda, mande para essa casa um projeto autorizando ele a transferir a praça para o bairro Expoagra.”
Sugeriu o terreno ao lado da UPA — confirmado por Flávio Henrique como patrimônio do município.
Obras perdidas por “birra política”. Elielson afirmou não acreditar mais na reforma da rodoviária e lembrou os 8 km de asfalto que teriam sido embargados quando as máquinas já estavam no local. Flávio Henrique complementou: seriam 28 km ao todo (10 executados, 10 prometidos, 8 barrados), beneficiando de 8 a 10 povoados.
Pontes derrubadas. Cobrou as pontes do Jaburu, Aparecida do Mearim e Boa Esperança 4, demolidas pela atual gestão sob promessa de reconstrução em concreto — obras que não saíram. Segundo ele, as de Aparecida e Boa Esperança estavam em boas condições e precisavam apenas de reparos. Pediu ainda reparo urgente na ponte do Remanso, acesso usado por indígenas após a perda da ponte do Bacurizinho.
Óculos não entregues. Denunciou que óculos de uma consulta oftalmológica realizada na aldeia Morro Branco em janeiro de 2025, viabilizada por emenda do deputado Antônio Pereira, nunca foram entregues — embora já estejam na cidade. Sugeriu que a razão seria o deputado não integrar mais a base do governo.
“Será que vão ficar para vender os óculos? […] Vamos prejudicar a população.”
Encerrou afirmando não viver do salário de vereador — “sou catireiro, compro e vendo gado” — e que seguirá cobrando mesmo que isso custe o mandato.
Outras falas
Arthur Carvalho — cobrou do secretário Pacheco a retomada do melhoramento da estrada da região Ponto da Negra (que atende também Olho d’Água do Mundico e Boco) e da região do Alegre, ambas rotas de transporte escolar. Anunciou a participação dos vereadores no 1º Fórum em Defesa do Mandato dos Vereadores e Vice-Prefeitos do Maranhão, em São Luís, e convidou para a abertura da Copa Grajauense 2026.
Rafael Gonçalves (vice-presidente) — em defesa equilibrada, afirmou que a drenagem já tem recurso federal alocado e está em processo licitatório, e que engenheiros já fizeram levantamentos para iniciar as pontes. Reconheceu os bloqueios de recursos dos últimos dois meses, mas pediu que a Casa também reconheça o esforço do prefeito.
Cristiano Fontenele — declarou publicamente apoio ao candidato Braide ao governo do Estado, rompendo com a orientação da base, e alertou para o desperdício de obras “por vaidade política das pessoas envolvidas”.
Paulo Doutor Zé Jorge — explicou didaticamente o funcionamento das emendas parlamentares via governo do Estado, esclarecendo por que o recurso da praça não veio direto ao município.
Antônio Carlos (registrado em ata da sessão anterior) — denunciou perseguição política no Hospital Geral de Grajaú, citando o caso de uma paciente com cirurgia ortopédica marcada que teria sido transferida para outro município para não ser operada em Grajaú.
Elane Jorge, ex-presidente da Câmara e atual subsecretária da Casa Civil do Estado, foi convidada à mesa e encerrou as falas reafirmando compromisso de servir de elo entre Grajaú e o governo estadual.

O que ficou em aberto
| Pendência | Prazo / situação |
|---|---|
| Audiência pública do SAAE | 17/08/2026, 9h |
| Projeto de lei dos cemitérios rurais | Em tramitação nas comissões |
| Doação de terreno para a praça (R$ 1,2 mi) | Sem projeto enviado — recurso em risco |
| Projeto de Henrique Mello parado no Executivo | Desde 17/03, sem sanção nem veto |
| Levantamento dos projetos parados no Executivo | Sugerido, não formalizado |
| Relação de pontes feitas/reformadas | Solicitada ao vice-líder para a sessão seguinte |
| Óculos da aldeia Morro Branco | Sem previsão de entrega |
| 8 km de asfalto embargados | Sem definição |
| Entrega dos postos de saúde (Andaraí, Macaúba, São Tantanho) | Sem data |
A próxima sessão foi convocada para quarta-feira, 12 de agosto.
Sobre esta cobertura
Todas as declarações reproduzidas nesta matéria foram feitas por vereadores em plenário, no exercício do mandato e sob proteção da imunidade parlamentar. São reproduzidas como falas atribuídas aos próprios parlamentares — não como fatos apurados de forma independente por esta redação. O Grajaú em Foco mantém o espaço aberto para manifestação de qualquer pessoa ou órgão citado nesta cobertura.
Cobertura: Grajaú em Foco · Fonte: transmissão oficial da Câmara Municipal de Grajaú-MA, Sessão Ordinária 030/2026, 11/08/2026 (4h28min).